Agentes de IA inauguram uma nova fase do e-commerce

O crescimento dos agentes de inteligência artificial promete alterar profundamente a forma como consumidores descobrem produtos, interagem com marcas e realizam compras online.
Se, durante as últimas décadas, o desafio do varejo digital foi construir experiências atrativas para pessoas, a próxima etapa passa a exigir que plataformas sejam compreendidas também por máquinas.
Na avaliação de Alessandro Gil, vice-presidente da Wake, o setor vive a transição do modelo tradicional de navegação para o chamado agentic commerce, cenário em que assistentes inteligentes pesquisam, comparam preços, avaliam produtos e podem concluir toda a compra em nome do consumidor.
“O cliente que chega à loja está deixando de ser exclusivamente humano. Estamos vivendo a transição do browsing para o agentic commerce, em que assistentes autônomos pesquisam, comparam, avaliam e até concluem a compra em nome da pessoa”, afirmou em entrevista à TI Inside.
Segundo o executivo, essa mudança altera completamente a lógica da descoberta de produtos no ambiente digital.
Enquanto consumidores são influenciados por design, campanhas promocionais e elementos visuais, agentes de IA tomam decisões com base em informações estruturadas, como preço, disponibilidade, atributos técnicos e políticas comerciais.
“O agente não enxerga a loja como um humano vê. Ele não é sensível ao design bonito, ao banner na home ou à fotografia emocional do produto. O agente lê dados”, explicou.
Na prática, isso significa que um produto pode deixar de ser recomendado simplesmente porque seu catálogo não está organizado de forma que modelos de IA consigam interpretá-lo corretamente.
A nova vitrine do varejo é orientada por dados
Essa transformação também modifica a própria jornada de compra.
Em vez de abrir diferentes sites para comparar produtos, consumidores passam a interagir com um agente em linguagem natural, que executa praticamente todo o processo de pesquisa, comparação e compra.
Para Gil, essa dinâmica inaugura o chamado zero-click commerce, no qual boa parte das transações pode acontecer sem que o consumidor visite o site da marca.
“A descoberta deixa de acontecer pela vitrine e passa a acontecer pelos dados. O comparativo se torna instantâneo e a fidelidade muda de dono, porque o consumidor tende a confiar na recomendação do agente”, afirmou.
Como consequência, métricas tradicionais do comércio eletrônico também deverão mudar.
Segundo o executivo, as empresas podem observar uma redução no tráfego direto de seus sites ao mesmo tempo em que mantêm, ou até ampliam, o volume de vendas, já que parte da jornada de compra deixa de ocorrer nos canais próprios das marcas.
A arquitetura das plataformas passa por transformação
A chegada dos agentes inteligentes não altera apenas a experiência do consumidor, mas exige uma revisão da arquitetura tecnológica das plataformas de e-commerce.
Na visão do VP da Wake, lojas virtuais deixam de ser apenas interfaces voltadas à navegação humana para se tornarem fontes estruturadas de dados acessíveis por APIs.
“A plataforma passa a ser projetada também como uma fonte de dados acessível para máquinas. O catálogo deixa de ser um banco de dados do site e passa a ser um dataset estruturado, rico e preparado para consumo por modelos de linguagem”, afirmou.
Essa transformação envolve iniciativas como arquiteturas API-first e headless, disponibilização de endpoints transacionais, atualização em tempo real de preços e estoques e adoção de dados estruturados capazes de alimentar agentes inteligentes durante todo o processo de compra.
Além da descoberta de produtos, o executivo destaca que a orquestração operacional passa a ser decisiva para garantir que recomendações feitas por IA correspondam à realidade do negócio.
“Se um agente recomenda um produto, a plataforma precisa garantir que ele existe, que o estoque está disponível, que o preço está correto e que o pedido será direcionado ao melhor canal. Sem isso, a IA pode até vender, mas pode vender mal.”
SEO evolui para otimização para IA
Outra mudança apontada por Gil é a evolução das estratégias tradicionais de otimização digital.
Conceitos como Answer Engine Optimization (AEO), Generative Engine Optimization (GEO), llms.txt e Model Context Protocol (MCP) começam a ocupar um espaço semelhante ao que o SEO representou nas últimas duas décadas.
Enquanto o SEO buscava posicionar páginas entre os primeiros resultados dos buscadores, essas novas abordagens procuram tornar conteúdos, catálogos e informações comerciais compreensíveis para modelos de IA.
“Esses conceitos definem as novas condições de visibilidade e conversão. Ignorá-los hoje equivale a ter um site que o Google não conseguia indexar em 2010”, afirmou.
Dados e agentes passam a determinar competitividade
Para o executivo, o maior desafio do varejo não é tecnológico, mas operacional e cultural.
Grande parte dos catálogos foi construída para pessoas, sem padronização de atributos, atualização em tempo real ou integração entre diferentes sistemas, como ERP, PIM e plataformas de e-commerce.
Além disso, muitas organizações ainda tratam a qualidade dos dados como uma atividade operacional, quando ela passa a ser um fator estratégico para garantir visibilidade junto aos agentes inteligentes.
“Na era dos agentes de IA, um atributo mal preenchido pode significar menos visibilidade, menos conversão e mais atrito na jornada de compra”, destacou.
Embora a experiência de compra seja uma das mudanças mais visíveis, Gil afirma que os ganhos vão muito além da interação com o consumidor.
Segundo ele, agentes inteligentes podem automatizar atividades de atendimento, rastreamento de pedidos, trocas, devoluções, enriquecimento de catálogos, precificação dinâmica, previsão de demanda e otimização de estoques.
“Os agentes deixam de ser apenas um novo canal de vendas para se tornarem uma camada de eficiência que percorre toda a operação, do backoffice à última milha”, afirmou.
Na avaliação do executivo, as empresas que sairão na frente serão aquelas que começarem desde já a estruturar seus dados, disponibilizar APIs e tratar seus catálogos como ativos estratégicos preparados para consumo por modelos de IA.
“O SEO está evoluindo para uma verdadeira AI Optimization. Vencer essa nova etapa exige tratar o catálogo como um dataset estruturado, semanticamente rico e projetado para ser compreendido e recomendado pelas inteligências artificiais”, concluiu.
FONTE DE IMAGEM: https://www.magnific.com/br/app