SAP aponta contexto e confiança como chaves para escalar IA nos negócios

A inteligência artificial já deixou de ser uma discussão sobre possibilidades para se tornar uma cobrança por resultados. Essa foi uma das principais mensagens de Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, na abertura do SAP NOW AI Tour Brazil 2026, realizado nesta quarta-feira (9), em São Paulo.
Diante de um mercado que amplia investimentos e começa a obter retornos maiores com a tecnologia, o executivo apontou que o próximo desafio está em levar a IA dos experimentos para os processos críticos das empresas — com contexto, integração, confiança e governança.
“Há pouco tempo atrás, a discussão era muito sobre o que podemos fazer com IA. E hoje, a pergunta talvez seja outra: como é que a gente transforma IA em resultado real para os negócios?”, provocou Botelho durante o keynote. Segundo ele, inovação e capacidade tecnológica continuam avançando em velocidade extraordinária, mas o mercado entrou em uma etapa na qual escala, retorno, confiança e integração passam a ser tão importantes quanto a própria tecnologia.
A mudança de estágio aparece nos números apresentados pela SAP. Segundo o estudo The Value of AI: Brazil 2026, realizado em parceria com a Oxford Economics, empresas brasileiras devem investir, em média, US$ 20,8 milhões em inteligência artificial neste ano, acima dos US$ 14,2 milhões registrados no levantamento anterior. A expectativa é que o ritmo de crescimento desses investimentos chegue a 46%.
O retorno também começa a acompanhar esse movimento. O ROI médio obtido pelas empresas brasileiras com IA passou de 16% para 19% em um ano, alcançando US$ 5,5 milhões.
Até 2028, a projeção é chegar a 38%, com retorno de US$ 13,6 milhões. Quando o recorte considera especificamente os agentes de IA, as empresas projetam retorno de 15% nos próximos dois anos, equivalente a US$ 24,8 milhões, mais de quatro vezes o valor de US$ 3,8 milhões registrado no levantamento anterior.
Para Botelho, os números indicam que a conversa sobre inteligência artificial empresarial já não pode ficar restrita à tecnologia. “Ela é sobre valor”, resumiu.
Mas existe uma distância considerável entre enxergar esse potencial e conseguir transformá-lo em escala. No Brasil, 77% das empresas consideram que agentes de IA têm potencial moderado a alto para transformar suas organizações e 55% já realizaram pilotos com a tecnologia. Apesar disso, somente 3% afirmam estar totalmente preparadas para implementar e escalar agentes.
É justamente nessa distância que Botelho colocou uma das provocações mais fortes de sua apresentação. Para explicar por que uma inteligência artificial aparentemente eficiente pode não ser suficiente para processos empresariais.
“Imagina se a IA está executando a folha de pagamento das empresas de vocês. Ou o fechamento financeiro, o fechamento contábil, ou ainda o planejamento de todo o supply chain. 80%, obviamente, não é suficiente”, afirmou. “Nos processos mais críticos de negócio, a IA não pode adivinhar.”
A comparação sintetiza um problema que aparece também na pesquisa. Entre as empresas brasileiras que já experimentam ou utilizam IA agêntica, todas relataram pelo menos um desafio de adoção.
Para 61%, a integração exigiu esforço maior do que o esperado; 54% perceberam aumento de problemas de confiabilidade ou qualidade conforme o uso ganhou escala; 45% registraram resultados inconsistentes entre equipes ou regiões; e 40% relataram agentes tomando ações incorretas.
Na visão apresentada pelo presidente da SAP Brasil, parte da resposta está no contexto de negócio. Botelho utilizou a imagem de um iceberg para diferenciar aquilo que está mais visível na atual onda de inteligência artificial, os grandes modelos de linguagem, da infraestrutura que efetivamente sustenta uma empresa.
Acima da linha d’água estão modelos cada vez mais poderosos para produzir textos, imagens, códigos e respostas. Abaixo dela, porém, estão dados corporativos, processos, regras de negócio, políticas, níveis de autorização, governança, histórico e exceções.
É essa camada, segundo Botelho, que permite que a IA deixe de trabalhar com informações genéricas e passe a atuar sobre a realidade de uma organização.
“Uma empresa não pode operar com informações descontextualizadas”, afirmou. Uma previsão financeira, exemplificou, precisa considerar vendas, demanda, cadeia de suprimentos e custos reais. Da mesma forma, uma decisão de compra depende dos fornecedores, contratos, estoques e políticas internas daquela companhia. “A inteligência artificial, sobretudo a inteligência artificial empresarial, precisa de um negócio chamado contexto de negócio.”
Novamente, os números mostram o tamanho da barreira. Para 75% das organizações brasileiras pesquisadas, qualidade ou disponibilidade dos dados ainda impede um retorno maior dos projetos de IA.
Apenas 18% adotam a tecnologia de maneira estratégica e integrada em toda a organização, embora o percentual tenha triplicado em relação aos 6% registrados no levantamento anterior. O modelo predominante continua sendo a adoção projeto a projeto, citado por 48% das empresas.
É a partir dessa combinação entre aplicações, dados, processos e inteligência artificial que a SAP está posicionando sua visão de Autonomous Enterprise. Botelho ressaltou que o conceito não significa retirar pessoas das organizações. A proposta é mudar o papel desempenhado pelo próprio software.
“Não estamos falando de uma empresa sem pessoas”, disse. “Estamos falando de uma organização em que o software deixa de apenas registrar o trabalho e passa a participar dele.”
Nesse modelo, aplicações passam a compreender contexto, raciocinar, coordenar ações e executar tarefas, mantendo as pessoas no controle.
Agentes poderiam conectar processos hoje fragmentados entre sistemas e equipes, interpretar mudanças e transformar informações em ações com maior velocidade, respeitando regras, autorizações e supervisão humana.
A tese também representa uma mudança no posicionamento da própria SAP. Ao questionar no palco se a companhia continuaria sendo uma empresa de software no futuro, Botelho respondeu que o software permanecerá essencial, mas mudará de natureza.
“A inteligência artificial não vai simplesmente substituir o software, mas ela vai viver dentro dele, integrada aos processos que fazem as empresas funcionarem”, afirmou.
O pano de fundo dessa transformação é uma contradição que os números brasileiros deixam evidente: as empresas estão investindo mais, esperando retornos maiores e experimentando agentes, mas ainda enfrentam dificuldades para criar as condições necessárias para colocá-los no centro da operação.
Para Botelho, portanto, a pergunta já não é se a inteligência artificial transformará as empresas. “Essa transformação já começou, não tem volta.” O desafio agora é outro: escalar a IA com contexto de negócio, confiança e resultado.
FONTE: https://tiinside.com.br/09/09/2026/80-nao-e-suficiente-sap-aponta-contexto-e-confianca-como-chaves-para-escalar-ia-nos-negocios/
FONTE IMAGEM: site Sap Brasil
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